Intimidade Amiga

Por: Elionai Dutra

Eram Nove horas da manhã, em algum dia. Num pequeno vilarejo, poucos moradores transitavam pelos caminhos. Duas crianças no pátio de uma escola faziam um sonido amigável e risadas que me levou à aproximação das cercas que protegiam uma quadra. Subi para alguns bancos da praça e olhava-as sentado num deles, no qual me dava uma vista privilegiada das crianças. Eu as observava lentamente, como que tornando a brincadeira em quadros de pensamentos distintos da minha realidade, assistindo, com todo esmero, aquelas duas criaturas brincando, sem compromisso, e que viviam correndo como se o próprio ar que respiravam fosse seu mais singelo e fiel amigo.

                
O relógio batia dez horas e trinta minutos da manhã daquele dia. Ainda brincavam com a bola nos pés, corriam para lá e para cá, num teatro que muito me instigava e me fazia encarar a minha vida de perto. Assim que uma delas olha para cima, vê um homem as observando e, elas, parando com o teatro voltaram os olhos para mim e a que estava com a bola nas mãos disse:
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--- O que está olhando? Dizia, enquanto me encarava com um olhar frio que parecia não mais ter a certeza de estar livre naquele momento.
                
Eu nada falei, apenas olhava, deixei meus olhos responderem a ela o que eu estava verdadeiramente olhando. Ela não sabia qual era a causa disso. Foi quando o outro amigo retornou o “teatro da alegria” que outrora contemplava.

Passaram-se trinta minutos. Uma manhã ensolarada e temperada, digna de uma bela exposição artística divina; uma estação prima da primavera; era como um arvorecer de flores com os perfumes mais cintilantes, as cores mais ruças que as próprias castanhas produzidas no verão; detinham uma beleza primordial de um paraíso; era um jardim diferente de todos os demais que eu conhecia. Um minuto que, em mim mesmo, contemplava esta beleza de jardim, começava minha meditação sobre a própria existência das criaturas que faziam aquele esplêndido “teatro da alegria”.

Percebia em mim as causas mais íntimas da vida quando deparei com aquelas crianças de maior valor humano. O que mais me chamava atenção para a força da vida, do bem, da fé, nas crianças, era a maneira paciente e sincera de agir uma com a outra, um caso difícil de encontrar na realidade que antes vivia. Ouço as alcunhas ditas uma para a outra que as distinguiam na forma de pensar e na simplicidade de viver. Sabiam viver. Eram amigos pelo que presenciava, uma vez que sentiam e viviam a mesma coisa e não percebiam o fracasso do outro quando errava, mas apenas dava uma guinada no roteiro do “teatro da alegria” e continuavam a brincar.

Uma mulher de cabelos abundantes, longos e desalinhados, pele morena, corpo esbelto, quadris alongados e uma face austera, olha para cima com um rosto que parecia fechado às pequenas coisas da vida, com uma vaidade preponderante e vistosa, em formas indistintas e inadequadas para viver naquele jardim, simbolizava uma inquietude voraz na existência pela repressão, com preocupações difíceis de entender, quando muito, para se aperfeiçoar. Eu a enxergava de uma forma diferente, não por ela mostrar quem era, mas por vivenciar a mesma existência das crianças e encarar o cenário do “teatro” como um simples lugar. Tentei conhecê-la e saber quem era esta mulher que convidava as crianças para outra estadia, que parecia ser diferente do jardim onde estávamos. Já se tornava dona das criaturas pequenas e frágeis, que não podiam cuidar de si mesmas, transformava as crianças em seu objeto de aprisionamento, pois sabia muito bem que eram apenas meninos inconstantes.

Os dois cedem fácil ao convite, mesmo não gostando da mulher que as chamava. Parecia que eles iriam de mãos dadas para um lugar que ainda não conheciam. O comportamento dos dois abalava-me muito, acabei de conhecê-los e já estavam saindo, novamente acabando com o “teatro da alegria”, mas, naquele instante, já não era eu o espectador e, sim, eles mesmos. Forçava inquietamente, um grito para retornarem, mas, pacificamente, recostei-me no banco e imaginei mais uma vez a vida numa paciência que custei para tê-la e ensiná-la.

As pessoas, após este fato, começaram a olhar para minha aparência como se eu não a soubesse e reinventavam minha personalidade. Assustei-me com as pessoas que estavam ao meu redor, pois eu sabia muito bem sobre o que elas não aprenderam na vida; mas, acima de tudo, compreendia o que não puderam entender.

Muitos diziam que eu era um velho resmungão e que não ligava para os outros, que apenas debulhava-me de lágrimas quando queria; tornavam-me um ser enrijecido e que já estava defasado com as ideias que outros pronunciavam sobre mim; afetavam minha propriedade no relacionamento tanto passado, quanto presente, simplesmente por que não pude livrar as duas crianças da mão de uma assassina disfarçada para a sociedade no Jardim; Não sabia o que ela queria com as crianças, e permiti.

Um dos meus mais fiéis amigos saía de sua casa em direção ao Jardim do Vilarejo, próximo a Escola da Vida, onde as crianças estavam. E num gesto amável e encantador me convidava para ir à sua casa conversar sobre o que ocorreu com as crianças. Desci, então, para a rua da Consolação; cumprimentei-o com todo o amor e comecei a chorar. Ele enxugou minhas lágrimas e disse-me:

--- Conheces você mesmo?

Eu o olhei e percebi que ele estava sempre me perguntando sobre a vida e a minha existência, mas, com um gesto de paz, explicou-me tudo sobre as crianças e a vida no Jardim. Começou me contando sobre a mulher e as duas criançinhas que eu contemplava como um espelho que parecia inexistente à minha realidade. Disse-me:

--- Amigo, você não sabia que este Jardim fora feito para isso? Sim, amigo, esse Jardim se Chama Éden. E você, somente hoje, entendeu o que eu fiz há muito tempo atrás. Agora tu sabes meu segredo e entendes o que fiz. Conheço-te. Tu eras aquele menino que viras com a "bola" nas mãos no meu teatro da vida.

E eu o perguntei:
--- Quem era o outro amigo que sorria?

Ele, olhando nos meus olhos, começou a sorrir e abrindo os braços, abraçou-me.

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